E se estivermos a medir a recuperação da forma errada?
Quando alguém procura ajuda por ansiedade, stress, medo, dor ou outro desconforto, uma das primeiras perguntas costuma ser:
“Já está melhor?”
Mas o que significa exatamente estar melhor?
É sentir menos ansiedade?
Ter menos sintomas?
Dormir melhor?
Tudo isto é importante. Mas, no acompanhamento de pessoas, tenho vindo a perceber que existe outra dimensão que merece atenção.
Uma pessoa pode continuar a sentir ansiedade e, mesmo assim, começar a fazer novamente exercício.
Pode continuar a sentir medo e recuperar progressivamente a autonomia para sair sozinha.
Pode continuar triste e voltar a interessar-se por pessoas, projetos ou atividades que lhe dão prazer.
O sintoma ainda existe.
Mas já não determina da mesma forma aquilo que a pessoa consegue fazer.
Esta observação levou-me a distinguir três dimensões quando penso em evolução:
Intensidade: quanto estou a sentir?
Autorregulação: quando isto acontece, quanto consigo recuperar o meu equilíbrio?
Impacto funcional: quanto aquilo que sinto está a condicionar a minha vida?
Esta distinção muda a forma como olhamos para o progresso.
Imagine alguém cuja ansiedade passa apenas de 8 para 6.
Se olharmos exclusivamente para a intensidade, poderemos concluir que houve uma melhoria limitada.
Mas e se essa pessoa anteriormente deixava de sair de casa e agora voltou a trabalhar, fazer exercício ou encontrar amigos?
E se anteriormente sentia que não conseguia controlar a escalada da ansiedade e agora reconhece os primeiros sinais e consegue utilizar estratégias que a ajudam?
Então houve uma mudança muito maior do que o número do sintoma consegue mostrar.
É uma das questões que tenho vindo a explorar no meu trabalho:
Talvez recuperar não seja apenas deixar de sentir. Talvez seja recuperar progressivamente a capacidade de escolher como viver perante aquilo que sentimos.
Isto não significa desvalorizar sintomas. Significa olhar para a pessoa de forma mais ampla.
Porque reduzir sofrimento é importante.
Mas recuperar autonomia também é.
E talvez uma pergunta complementar a “quanto está a sentir?” seja:
“O que já consegue voltar a fazer, apesar daquilo que ainda sente?”
Claudia Lucena de Sousa
Terapeuta de Bem-Estar
Técnica Certificada de Biofeedback REF







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