segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Estar melhor não significa necessariamente deixar de sentir

 


E se estivermos a medir a recuperação da forma errada?





Quando alguém procura ajuda por ansiedade, stress, medo, dor ou outro desconforto, uma das primeiras perguntas costuma ser:

“Já está melhor?”

Mas o que significa exatamente estar melhor?

É sentir menos ansiedade?
Ter menos sintomas?
Dormir melhor?

Tudo isto é importante. Mas, no acompanhamento de pessoas, tenho vindo a perceber que existe outra dimensão que merece atenção.

Uma pessoa pode continuar a sentir ansiedade e, mesmo assim, começar a fazer novamente exercício.

Pode continuar a sentir medo e recuperar progressivamente a autonomia para sair sozinha.

Pode continuar triste e voltar a interessar-se por pessoas, projetos ou atividades que lhe dão prazer.

O sintoma ainda existe.

Mas já não determina da mesma forma aquilo que a pessoa consegue fazer.

Esta observação levou-me a distinguir três dimensões quando penso em evolução:

Intensidade: quanto estou a sentir?

Autorregulação: quando isto acontece, quanto consigo recuperar o meu equilíbrio?

Impacto funcional: quanto aquilo que sinto está a condicionar a minha vida?

Esta distinção muda a forma como olhamos para o progresso.

Imagine alguém cuja ansiedade passa apenas de 8 para 6.

Se olharmos exclusivamente para a intensidade, poderemos concluir que houve uma melhoria limitada.

Mas e se essa pessoa anteriormente deixava de sair de casa e agora voltou a trabalhar, fazer exercício ou encontrar amigos?

E se anteriormente sentia que não conseguia controlar a escalada da ansiedade e agora reconhece os primeiros sinais e consegue utilizar estratégias que a ajudam?

Então houve uma mudança muito maior do que o número do sintoma consegue mostrar.

É uma das questões que tenho vindo a explorar no meu trabalho:

Talvez recuperar não seja apenas deixar de sentir. Talvez seja recuperar progressivamente a capacidade de escolher como viver perante aquilo que sentimos.

Isto não significa desvalorizar sintomas. Significa olhar para a pessoa de forma mais ampla.

Porque reduzir sofrimento é importante.

Mas recuperar autonomia também é.

E talvez uma pergunta complementar a “quanto está a sentir?” seja:

“O que já consegue voltar a fazer, apesar daquilo que ainda sente?”

Claudia Lucena de Sousa

Terapeuta de Bem-Estar

Técnica Certificada de Biofeedback REF

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