sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Viver sempre para os outros: onde ficas tu?




Viver para os outros pode parecer, à primeira vista, um gesto de generosidade. Estar disponível, ajudar, cuidar, resolver. Mas quando esse padrão se torna constante, algo começa a desaparecer silenciosamente: tu.

Muitas pessoas constroem a sua identidade em função do que os outros precisam. São as que estão sempre presentes, sempre acessíveis, sempre prontas a responder. Com o tempo, deixam de saber o que querem, o que sentem ou o que precisam. Não porque não exista, mas porque nunca há espaço para escutar.

Viver sempre para os outros cria uma desconexão interna profunda. O corpo cumpre, a mente organiza, mas o interior vai ficando vazio, cansado ou ressentido. Muitas vezes surge culpa por sentir isso. Afinal, “não devia sentir-me assim”. Mas o corpo não negocia necessidades básicas.

Este padrão raramente nasce do nada. Muitas vezes vem de histórias onde foi preciso agradar para ser aceite, cuidar para ser valorizada, estar disponível para manter ligação. O problema é que aquilo que começou como adaptação torna-se prisão.

Quando não há espaço para ti, o corpo cria sintomas como forma de criar limite. Cansaço extremo, falta de energia, irritação constante, ansiedade. Não para te punir, mas para te proteger. O corpo tenta parar aquilo que tu não consegues parar sozinha.

Cuidar dos outros não é o problema. O problema é fazê-lo à custa de ti. Relações saudáveis não exigem autoabandono. Exigem presença verdadeira — e não há presença sem limites.

Recuperar o lugar interno não acontece de forma brusca. Começa com perguntas simples e desconfortáveis. O que eu quero? O que eu sinto? Onde estou a dizer “sim” quando o corpo está a dizer “não”? Estas perguntas abrem espaço. E onde há espaço, há possibilidade de mudança.

Talvez hoje possas olhar com honestidade para a tua vida e perguntar: em que momento deixei de me incluir nas minhas próprias prioridades?
Cuidar de ti não afasta dos outros. Aproxima-te de ti. E só a partir daí as relações podem ser verdadeiras.


Claudia Lucena de Sousa

Terapeuta de Bem-Estar

Técnica Certificada de Biofeedback REF


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